Vestir amor

Há alturas na vida em que, quando menos esperamos, aparece alguém que nos faz repensar tudo. E há pouco mais de um mês eu tive a sorte de conhecer uma pessoa inspiradora.

Uma Senhora que, com os seus quase oitenta anos e numa cama de hospital, me tratou como se fosse da família. Uma senhora com um coração gigantesco e um amor ainda maior. Foram dias e dias em que ao acordar ficava sempre mais feliz por saber que ia poder estar com ela mais um bocadinho. Ouvi-la falar era sempre muito especial.

Quando alguém está numa cama de hospital a lutar, mais uma vez, contra a maldita doença o mais fácil seria tentar esquecer tudo, principalmente a dor. Mas a D. Fernanda nunca baixou os braços, por maior que fosse o sofrimento. Mesmo desanimada, com dores e ansiosa por voltar a casa, tinha sempre um abraço e um sorriso para dar a quem chegava. E tratava-nos a todos por “meus amores”. Com um carinho tão grande que nos preenchia a alma.

Depois de muitos dias em que foram longas as horas de conversa, depois de tudo aquilo que me ensinou, foi avassalador o momento em que me disseram que tinha partido. Fiquei sem chão, como se fosse família. E tudo o que conseguia era chorar, chorar cada vez mais.

Mas há coisas incríveis, coisas que não se explicam. E foi quando me lembrei de um dos seus pedidos que descobri que tinha que parar de chorar e fazer o que a D. Fernanda tantas vezes me pediu. Tinha  mesmo que vestir um vestido comprido.

E assim foi. Poucos dias depois de ter recebido a notícia que tanto me fez chorar, finalmente consegui sorrir. Vesti o vestido, olhei-me ao espelho e só consegui sorrir. Um sorriso que me encheu a alma e que me lembrou de como foi bom aprender e sorrir com ela.

Desde esse momento as lágrimas deram lugar aos sorrisos, aos sorrisos que não consigo conter sempre que me lembro da D. Fernanda. Só alguém realmente muito especial consegue mudar assim a vida de uma pessoa.

Conhecê-la foi, para mim, uma das maiores dádivas que Deus me deu. Foi uma feliz coincidência, cuja força jamais conseguirei explicar por palavras.

O momento da partida doeu. E chorei muito. Mas hoje, maior que a tristeza de a ter perdido é a alegria e a gratidão de a ter conhecido.

Há coisas realmente incríveis.

E para mim, depois desta dádiva, vestir um vestido comprido é vestir amor.

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