O que se escreve quando me são tudo?

Ainda ontem estava a entrar, pela primeira vez, na universidade. A conhecer cada sala e cada jardim daquela que passou a ser, também, a minha casa. E, hoje, sou finalista.

Do kit de caloira às fitas de finalista, foi um instante. Um piscar de olhos de pura felicidade.

Ainda ontem obedecia aos meus doutores. E hoje tenho nos meus caloiros o motivo do meu orgulho. E a vontade de continuar lá com eles é enorme.

Ainda ontem era eu que apreciava os trajes dos mais velhos e hoje está quase a chegar o momento em que vou ter de me despedir da minha capa. E do traje que me acompanhou, sempre. Em cada um dos momentos mais importantes.

A cartola e a bengala já estão lá em casa. Na minha casa de sempre. Um cantinho pequenino cujo valor nunca saberei traduzir por palavras.

E as fitas que tenho para escrever também já lá estão. Tenho andado a ganhar coragem para começar a escrever. Mas não tem sido fácil. Pode parecer estranho, mas acho que vejo no momento da escrita um apressar da despedida. A despedida que mais quero evitar.

E, depois, há o impossível. Por muito que tente, eu sei que quando ganhar coragem e começar a escrever as palavras não me vão sair. Porque é impossível…

O que é que se escreve a alguém que nos é tanto?

Como é que se escolhem as palavras que traduzam a vida que essas pessoas nos deram, todos os dias?

Como é que se escolhem momentos quando todos – sem exceção – foram mais do que importantes?

É impossível.

Não vou nunca conseguir escrever tudo aquilo que vivemos. Não vou nunca conseguir tudo aquilo que me ensinaram, cada um à sua maneira.

Não vou nunca conseguir escrever o tamanho do obrigada que tenho para vos dizer. Não vou nunca conseguir escrever o significado que tiveram, têm e terão sempre.

Não vou nunca conseguir admitir a possibilidade de ser este o momento da despedida.

Como é que se escreve quando só se quer viver mais momentos de abraços e de brindes?

Como é que se escreve quando o que partilhamos é o maior e mais verdadeiro hino à amizade que pode existir?

Como é que se escreve quando escrever nos custa tanto?

Eu não sei, mas vou tentar. Mesmo sabendo que, por muito que escreva, o que nos une não se traduz. E que, para o que vivemos, nunca haverá palavras.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s